quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bonnie e Clyde (1967)

A liberdade criativa finalmente ganharia voz depois do estrondo das rajadas de balas emitidas pelo explosivo “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas“ (1967). A cilada sangrenta que acompanha sua impiedosa finalização mostrou à potente Hollywood, que o cinema financiado pelos mega estúdios poderia fugir da fábula e escandalizou o público não habituado com seu teor elevado de brutalidade, reduzindo o último suspiro dos condenados a um ato proibido. A irrupção de Bonnie e Clyde nas telas do cinema na última parte da década de 1960 concedeu asas à imaginação de artistas influenciados pelo movimento mais humano que o cinema já viu.

Um excitante casal enfeitiçado pelas periculosidades do crime

Mais do que um filme com sensacionais cenas de tiros para todos os lados, “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” (1967) foi um marco essencial que modificou a indústria cinematográfica deixando de lado a fábula convencional de Hollywood enfatizando situações realistas repletas de violência em uma época que o grande público não estava acostumado a presenciar no cinema dos grandes estúdios. Se o filme existe devemos o fato a Warren Beatty que com sua perseverança irredutível fez com que o filme fosse lançado e principalmente abriu caminho para filmes posteriores influenciados pela nova onda de Hollywood.

Dizem as más línguas que Beatty, empolgadíssimo com o projeto, ajoelhou diante de Jack Warner em uma cena humilhante dizendo que lamberia seus sapatos se o mesmo autorizasse o andamento do trabalho de “Bonnie e Clyde”. Como o magnata já estava a fim de passar seu posto na Warner, ele se sensibilizou com o pedido do ator e resolveu autorizar o projeto. Como nem tudo é perfeito, Jack Warner quase abandonou a continuidade do trabalho acreditando que filmes de gângster já tinham tido sua época e os planos de Beatty estavam praticamente condenados ao fiasco.

O produtor do filme foi o próprio Warren que se interessou pelo roteiro de David Newman e Robert Benton que contava a trajetória criminosa de Bonnie Parker e Clyde Barrow que aterrorizaram as autoridades do interior dos Estados Unidos no começo da década de 30. Como Benton e Newman eram fãs da “Nouvelle Vague” francesa, a dupla gostaria que François Truffaut comandasse a direção mesmo admirando o também francês Jean-Luc Godard. Com a afirmação de Truffaut de que dirigiria o filme, os estúdios acharam uma opção inadequada frustrando os roteiristas animados com a possibilidade de concretizar a obra. Logo depois Warren Beatty se interessou pelo roteiro reanimando os escritores com o renascimento da idéia de levar o projeto a diante. Curiosamente, o roteiro original incluía uma cena de um ménage à trois que teve que ser removida graças à afirmação de Arthur Penn que foi o diretor escolhido de que os personagens já eram polêmicos e mereciam a identificação do público e uma cena como essas não iria ajudar em nada, e Beatty declarou que não faria papel de homossexual mesmo sendo clara sua reputação com as mulheres que ele fazia questão de cortejar.

Como o roteiro foi influenciado pela inovação da “Nouvelle Vague”, a filmagem de “Bonnie e Clyde” também evocou o estilo mesmo sem Truffaut para conduzir a projeção, o início do filme com a até então desconhecida Faye Dunaway mostra a atriz em frente ao espelho acompanhada com movimentos de câmera que pareceram ser retirados de um filme francês revolucionário, este primeiro contato reflete o restante do filme e estamos prestes a nos aventurar em companhia dos carismáticos bandidos. É impossível não nos identificarmos com os personagens principais apesar da criminalidade explícita na obra, Bonnie (Faye Dunaway) e Clyde (Warren Beatty) são dois bandidos justiceiros como é mostrado em algumas cenas quando eles cruzam com desfavorecidos no caminho. Uma cena em especial emociona quando Clyde oferece sua arma a um homem que perdeu sua casa para o banco e este fuzila a placa da propriedade em uma tentativa de vingança instantânea.

O trágico fim dos personagens que são fuzilados da cabeça aos pés chocou naquela época, na primeira exibição pública estavam presentes diretores consagrados que Beatty convidou e que mantinha grande consideração por eles, de Billy Wilder a Jean Renoir. Apesar do fervor que ocorreu na exibição através dos admirados aplausos, o filme foi prejudicado pela data de seu lançamento e pelas críticas arrasadoras. Pauline Kael conhecida por suas críticas fervorosas e por sua influência reanimou os envolvidos com a obra cobrindo-a de elogios que certamente iriam ajudar na publicação do filme. Mesmo com a presença de grandes controvérsias, o filme renasceu e fez com que Warren Beatty prosperasse na carreira cinematográfica, a obra enriqueceu o produtor-ator que não era levado muito a sério e foi o auge de sua carreira.

Não só as cenas brutais que prevalecem em “Bonnie e Clyde”, o filme também foi um transgressor tratando de temas sexuais muito abertamente em toda a projeção, o problema de impotência de Clyde é abordado livremente e foi este o tabu escolhido ao invés do ménage que poderia provocar reações adversas, e muitos homens poderiam se identificar com o problema embaraçoso do sedutor Clyde. Uma das muitas cenas do filme retrata o fato com precisão, Bonnie tenta seduzir Clyde que falha na tentativa frustrando a moça que deita desapontada ao lado de uma arma de fogo, dando vida ao simbolismo de que o objeto é seu maior exemplo de autoridade perante sua situação com a parceira. A obra foi essencial para filmes a seguir que promoveriam a ascensão de diretores finalmente livres da ganância dos grandes estúdios que deixavam de lado o talento do artista em busca de grandes lucros. A execução brutal de Bonnie e Clyde incluindo a reconstituição da trajetória dos adoráveis ladrões de bancos funcionou como uma preliminar do movimento artístico que viria a seguir: uma nova geração cinematográfica liderada por diretores obstinados gritariam pelos seus ideais acima de tudo, protegendo seus projetos de intervenções prejudiciais dos supostamente mais poderosos.

“Quem vai querer ver a ascensão e queda de dois ratos? Estou arrependido de não ter lido o roteiro antes de dizer sim. (...) Essa época acabou com Cagney”.

Memorando inacreditável de Jack Warner afirmando que o filme de “gângster”- estilo levemente compatível com o projeto em questão - já estava morto e enterrado.

3 comentários:

Alan Raspante disse...

Quero muito ver este filme depois de ler sua resenha, me parece ser muito muito bom!
Emmanuela, valeu pela sua visita ao meu blog. Eu já conhecia o seu há um bom tempo, já até seguia ele. Parabéns pelo ótimo blog!
Add teu blog no meu...
cinemapublico.blogspot.com

Cristiano Contreiras disse...

Um importante filme, pra mim um marco mesmo e tem uma verve dramática com leve humor frenético que me agrada por demais, Manu.

Poderia ler meu post sobre este filme? está nos meus arquivos, procura lá na busca. Eu adoro mesmo este filme e teu texto trouxe, como sempre, boas informações técnicas e dos bastidores de produção.

Beijão

RoDolFo disse...

Belo e interessante texto...

eu adoro esse filme tão moralmente constrangedor.....