quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Almas Desesperadas (1952)

Marilyn Monroe comprovou inconscientemente seu talento quando interpretou Nell Forbes em “Almas Desesperadas”, personagem extremamente exigente por sua vulnerabilidade perniciosa. É gratificante poder observar os precisos e elegantes movimentos da atriz em um filme de evidente importância, principalmente para aqueles fascinados pela carreira de Monroe.

Lembranças que torturam

O primeiro grande papel de Marilyn Monroe é, definitivamente, desafiador e bem distante das personagens cômicas que seriam predominantes em sua carreira. Prestigiar somente sua belíssima e eficiente interpretação dramática no ulterior “Nunca Fui Santa” (1956) e, como consequência, desprezar o seu trabalho como a psicótica Nell Forbes de “Almas Desesperadas” (1952), é um ato completamente faccioso. Em “Almas Desesperadas”, Monroe consegue transmitir ao público a grandeza de seu poder e outros grandes papéis em filmes de extrema importância seriam apenas uma questão de pouco tempo. Também é uma injustiça ressaltar que seus distúrbios psicológicos influenciaram na construção da personagem, uma simples observação como esta subestima o talento de Marilyn Monroe como atriz, o que é um ultrajante equívoco. Nell Forbes foi o resultado da preparação e do incontestável talento de Marilyn. Análises que inferiorizam a capacidade da atriz são irreais e inadequadas.

O filme que simbolizou a grande chance de Marilyn foi tratado com muito respeito pela Fox, que selecionou uma conceituada equipe para integrar a produção artística. Darryl Zanuck, prócer da Fox, que inexplicavelmente, não se deixou levar pelos encantos de Marilyn, parabenizou a atriz com um bilhete pelo seu admirável desempenho no screen test; uma ação de reconhecimento que massageou a auto-estima da atriz constantemente fragilizada. Apesar de ter recebido críticas desagradáveis de alguns especialistas, a atuação de Monroe conseguiu animar outros críticos que elogiaram o evidente êxito.

Em um hotel de Nova York, Nell Forbes (Marilyn Monroe) consegue um trabalho de babá por intermédio de seu tio Eddie Forbes (Elisha Cook Jr.), um ascensorista de confiança do luxuoso hotel. Recém liberta de um sanatório, Nell parece estar em perfeitas condições mentais e não desperta nenhuma desconfiança e curiosidade. Durante alguns relevantes minutos, o filme se concentra na conturbada relação de Jed Towers (Richard Widmark) e Lyn Lesley (Anne Bancroft), enquanto Nell Forbes se acomoda no quarto onde deverá exercer as suas funções. Jed, um galanteador piloto de aeronaves, não desperdiça sua masculinidade lamentando os seus desentendimentos com a atraente cantora Lyn Lesley e observa pela janela sua vizinha portadora de uma involuntária sensualidade. A babá Nell rapidamente faz bom proveito dos pertences da mãe da menina que se propõe a cuidar e quando permite a entrada de Jed no quarto, está totalmente adornada com os objetos que lhe são proibidos. A lasciva moça que tenta solapar a verdade, não consegue driblar a perspicácia de Jed, que logo descobre que algo está perigosamente errado.

Nell é uma mulher totalmente influenciada por um trauma não superado: a perda abrupta do homem que amou imensamente. Como Jed partilha da mesma profissão de seu antigo namorado, Nell acredita de forma doentia que o piloto é amor de sua vida, exatamente o mesmo homem que morreu ao cair com o avião no mar a caminho do Havaí. O piloto, ao se envolver rapidamente com Nell, desenvolve uma considerável sensibilidade, e a favorecida é Lyn, que enxerga com admiração um novo homem totalmente desconhecido, desvencilhado do antigo Jed quase rudimentar. Richard Widmark, Anne Bancroft e Elisha Cook Jr. estão absolutamente eficazes em seus papéis. As atuações repletas de intensidade de Widmark e Monroe estão em perfeita sincronia. Uma considerável adaptação de Daniel Taradash que resultou em um filme curto e objetivo, só nos resta aproveitar a tensão crescente, sempre lembrando que Nell Forbes foi o prelúdio de outras magistrais atuações da sempre estonteante Marilyn Monroe.

- Alô.

- Alô, você é a moça do 809?

- Sim, ora, quem é...?

- Sou do 821, da janela em frente. Posso lhe fazer uma pergunta?

- Bem, não sei. Suponho que sim. Tem certeza de que é a mim que quer?

- Sim, você é quem eu quero, sim. Está fazendo algo que não poderia fazê-lo melhor comigo?

- Acho melhor eu desligar.

- Ninguém se machuca pelo telefone.

- Quem é você?

- O homem da janela em frente. Uma alma solitária.

Diálogo telefônico de Jed e Nell, sutilmente sensual.


4 comentários:

gabriel disse...

Seu ótimo texto me deixou bem mais a fim de ver esse trabalho de Marilyn Monroe do que os mais conhecidos dela. Essa personagem perturbada me chama muito mais a atenção do que as cantoras e dançarinas de Os Homens Preferem As Loiras ou Nunca Fui Santa. Sempre é bom ver mais Marilyn, de qualquer modo (:
Abraços

Breno Yared Pinto disse...

Valeu pela visita ao meu blog, Emmanuela. Também gostei do seu e estou te seguindo.

Beijos!

Anônimo disse...

Muito bom mesmo esse filme da Marilyn Monroe, eu tenho ele, e posso garantir que ela da um show de interpretação.

Luiz Santiago disse...

Sou um grande admirador da Merilyn Monroe, e este papel especificamente me chamou muito atenção. O filme em si é uma pequena joia, e seu valor se torna ainda mais alto se observarmos o que você tão bem fez em seu texto.

Parabéns. Ótima análise para um ótimo filme.